Ele se pegou sonhando de novo. Com uma nova chance. Era tudo o que ele precisava. Um recomeço, a sua virada de mesa, ele a chamaria de próxima 'aventura'. Tão sonhador. Seu último amante viajava agora, para milhas distantes. E era melhor assim. A despedida havia sido dolorosa. Para os dois. Mas essa era a chance que ele tanto precisava. O menino de sonhos grandes demais para vivê-los. Queria se modificar. E ter a chance de viver outro personagem. Já que sua vida havia sendo o plágio sujo da ficção. Onde ele tentava ao máximo se encaixar, mesmo que tivesse que tomar atitudes e mudanças contra ele mesmo. Mas ele sempre conseguia ser igual aos personagens que ele podia.
Entrou na escola nova. Com os novos sonhos. E com o coração cicatrizando, lentamente. Como qualquer outro filme, ele sabia o que escola nova significava. Clássico filme norte-americano onde ele se apaixonaria, faria amigos para a vida toda e talvez chegasse a apagar aquele velho passado, porque cada personagem precisa do seu único passado. Não misturar as histórias, não misturar os amores, não misturar as falas, nem as intenções. Lição importante, dizia a si mesmo.
Os dias começaram a se acumular. E as novidades também. Paixões e amigos pra sempre, parecia um pouco distante. Era o começo, deduziu. Ainda era cedo demais, talvez. Ele também já tinha seus amigos por fora. Não tinha intenção alguma de sobrepô-los. Não havia necessidade de dividir mais segredos. Tirando a vontade de vivenciar outro filme. Outro personagem.
Era um dia de atrasos. Acordou atrasado. Tomou banho atrasado. Saiu de casa atrasado. Chegou na escola atrasado. E não havia mais lugares. Foi parar no outro lado da sala. Que parecia outro lado do mundo. Outras pessoas, outras conversas e não estava mais tão focado nos estudos assim.
Um menino curioso se aproximou de César. E o acompanhou pelas seis aulas. Conversaram sobre muitos assuntos, principalmente música. Esse menino engraçado era viciado em bandas internacionais de Rock Alternativo.
No outro dia, todo o grupo estava adotando o calouro. César sentiu que talvez as coisas começassem e se precipitou.
Desfilava pelos corredor da escola, sem se importar com qualquer opinião. Com qualquer comentário que pudesse ser feito. Pelo menos, tentava ser assim. Não que fosse confessar a alguém, mas por dentro era completamente inseguro. E suas pernas tremiam tanto que poderia cair no chão, se isso não passasse logo. Por sorte, ninguém o notava. Nada de frios na barriga.
O meio do ano trouxe os ventos que filmaram um rápido romance perdido. Que não valeria muito. Sabe como é, não? Pequenos romances, não correspondidos, não vendem. Não atraem.
Principalmente aqueles sem finais felizes. Mas não que alguém tenha se arrependido. Não que se estivessem, algo mudaria. A partir das férias, a camera ligou-se e o elenco finalmente entrou. O script talvez estivesse sendo escrito ou tudo já estivesse completamente planejado.
O menino de moicano de novo estava por perto. César deixou seus olhos brilharem. Seus surtos de encantos com o desconhecido, estava acionado. Não era amor. Não era paixão. Mas também não era fisico. Era um dos encantos. Como quando você se desmorona pela pessoa que parece ter sido feita das melhores partes dos personagens os qual você se apaixonou. Mas não era algo que aconteceria. Era óbvio, para o menino dos sonhos muito grande para vivê-los. Ele então, se deixou levar pela ansiedade. E revelou o interesse. Infelizmente, dizeram-lhe as más nóticias. Seus desejo se rompeu e foi guardado embaixo do travesseiro, como uma derrota. Mas estava guardado. Era a primeira vez que o via. E algo deixou-o hipnotizado. Mesmo que incosciente isso se gravou nele. E o menino de sonhos grandes, partiu. Levando consigo o outro. Aquele que era o tipo 'the one'.
Na escola, as coisas voltaram diferentes. Todo intervalo agora era gasto na sala do segundo andar. E o do novo grupo de amigos, só um iria ser parte do filme. Gui.
Esse que acompanhava o menino dos sonhos grandes demais para vivê-los. Os dois se uniram á uma menina encantadora do segundo colegial. Cabelos castanhos, na época, que se coloririam de acordo com os mêses. Dois pircings...Alargadores. Completamente fora dos padrões. Mas uma beleza não dita. Não explicada, apenas fácilmente notada.
Colega de sala do menino de moicano, que se chama Alberto. Um lindo nome, dizia César. Mas algo ali soava estranho. Não era só o nome, ou o corpo físico que lhe atraia. Havia um encanto...Um 'Venha conhecer o mundo comigo, eu te levo pra qualquer lugar' dentro dos seus olhos. Os mais brilhantes. Os mais profundos e expressivos que César já havia admirado. Perdeu o ar. Perdeu a cabeça. E deixou-se admirar mais tempo que gastaria com um encanto. Perdeu os limites e foi alertado, muito tarde.
- Você gosta dele. - Disse Gui. O melhor amigo, do filme. Aquele personagem que não é o principal, olhando dessa visão. Mas sem dúvida poderia ser. De outra história. Aquele personagem que esbanja carisma. Uma história curiosa, mas ainda não era hora. Sua hora chegaria. E seria o momento onde Gui seria o destaque. Como merece.
César negou e se chocou com a acusasão. Que rídiculo. O menino dos sonhos grandes de mais não amava. Não tinha namorados. Não se iludia. Não de novo. Não após do último romantico. Não depois do quebrador de promessas sem coração. Que levou lhe o ar. E terminou com as chances. O menino sem sorte no amor e no jogo. O quebrado. Como poderia amar outra pessoa...Se nem sentia que havia um coração ali batendo? O último não devolveu.
- Você estava certo. - Disse desesperado, no dia seguinte.
A ficha tinha caido. Estava apaixonado... Não era apaixonado...Era só que o menino da sala superior era incrivelmente lindo. E seu sorriso deixava o seu corpo mais leve. Os risos pareciam ficar na cabeça muito mais tempo...Assim como os seu cheiro...Ele estava definitivamente apaixonado. E era um dos encantos mais fortes que sentiu. E estar ao lado dele era algo tão reconfortante. Porque não era só como se ele fosse especial. César também se sentia, enfim, acolhido. E parecia pertencer lá. Já que Alb, num sonho e uma loucura de prepotência parecia ter sido feito pra ele. O que rapidamente escapou de sua cabeça. Não era real. Ele era bom demais.
Não sabe-se como. Mas os quatro se tornaram melhores amigos. Os do filme. 'It´s happening'.
Foi o primeiro aviso. O primeiro capítulo. Não houve problemas para se adaptar com essa ilusão. Tudo contribuia para que os quatro fossem inseparáveis. E quanto mais pertos, mais crescia esse amor. Calado.
Infelizmente, a irmã do menino de moicano alto e dono dos olhos mais brilhantes e encantadores contou-lhe o segredo proíbido. 'Ele te ama'. Três palavras.
O menino receoso manteve-se cautelozo e questionou a menina mais bonita e insegura que estudava naquela escola. Sua melhor amiga, Camila. 'Ele gosta mesmo de mim?'
"Eu não sei". Mentiu a fiel amiga. A segunda a saber sobre o amor platônico e incondicional do probre menino dos sonhos grandes demais. "Você não gosta dele? Não ficaria com ele?" Tentou a amiga. "Não...Ele é tipo um irmãozinho pra mim".
Essas palavras doeram
like hell no pequeno menino. E ele preciso se recompor e tentar. Arriscar um pouco.
Usou-lhe o dom das palavras, que por sorte era seu único dom. O que dominava melhor. O que, se sentia seguro, em dizer. Em cartas. Não ao vivo. Não onde ele facilaria. Onde ele não conseguiria respirar. Ele precisava de tempo e uma caneta.
Terminou a carta com um pedido. Após a declaração e a confissão de um amor perdido. '
Depois de tudo isso, você ainda pode me dar um abraço?'
Ah o abraço...As vezes o menino do coração quebrado e terços de textos mal elaborados só desejava dizer Adeus. Para poder sentir o abraço e ouvir coisas como 'Se cuida'. 'Eu gosto de você'. 'Até amanhã'. Essa confirmação de amanhã tem mais. Era o suficiente. O menino sentia-se saciado e correspondido. Apesar da resposta ter ficado pra mais tarde, não havia mais ninguém ali. Mesmo que os chamasse de amigos. Aquilo era um pouco maior. Pelo menos para o menino iludido e apaixonado. A amizade ultrapassa os limites de qualquer definição. E não havia como se esquivar da armadilha. Aqueles olhos...Aquele sorriso...Aqueles dentes...
O primeiro estranho gosto do amor. Os dentes... A quase obssessão do garoto que adorava aqueles dentes. Daquele jeito que estavam presos naquela boca. Naquele rosto divino.
Dentro desses mêses corridos cheios de dias inimagináveis. Alb apresentou ao menino uma nova palavra.
Ameixa. Que se tornou uma expressão. Outra embrulhada e guardada embaixo de um travesseiro fofo. Seco. Sem lágrimas. Não havia porque de lágrimas e mesmo que houvesse o menino de sonhos grandes demais, não chorava. Jamais. Era incrivelmente forte. Ou incrivelmente vazio. O suficiente para não conseguir se deixar solto. Livre para descansar o cansaço dessa vida. A palavra que fora escrita na carta de resposta a primeira declaração do guri. Que o matou. Com palavas doces e um verso, fixado permanentemente na sua memória 'Infelizmente, não sou capaz de retribuir todo o seu sentimento'. Repetiu em silêncio seis vezes dentro de si. Parecia o fim, mas o fim ainda estava longe. Longe demais.
Do outro lado da vida do menino de sonhos grandes. Ele tinha uma banda. Nada famosa ou revolucionária. Mas era boa. Onde ele armazenava suas forças. E tinha seus melhores amigos.
A vocalista, a estrela da banda, tão linda e talentosa se destacava de qualquer outra pessoa. Ela tinha um brilho que cegava qualquer olhar. Não havia como escapar, mesmo ela tentando esconder de todos os jeitos. Mesmo se sentindo tão insegura, esse brilha irradiava todo o ambiente. Teu sorriso produzia bem estar. Carinho, conforto. E era uma honra estar perto dela. E a guitarrista sempre foi sua melhor amiga. Desde a quinta série. A razão de ser quem era, o menino do império de sonhos devia á ela. Exclusivamente. As duas eram suas grandes torres e as únicas que sempre estiveram e ele sabia que permaneceriam ali. Para ele.
Além dessas forças, havia seus ídolos...Aqueles heróis que você desejaria ser...E por muita sorte, ele tinha eles ao seu lado. A banda
DEPOIS DO FIM era uma banda ainda underground. Assim muito fácil de ser contata. E César conseguiu se tornar grande amigo das meninas da banda. Fazendo-as apoiar sua banda e ainda ajudá-lo na sua vida, com conselhos já que elas eram todas mais velhas.
Uma coisa que foi apagada e esquecida, por um tempo, que não foi arrependida foi a familia. O menino sempre deu muita importância para a mãe e a irmã...E para a sua avô, que falecera há um bom período de tempo. Mas todo o resto, fora completamente indiferente.
O que o fez se sentir errado. Como alguém pode não se importar com a familia? Esses custumes e tradições não ajudavam muito. Laços sanguinios eram tão descartáveis.
O filme seguiu do romance para o drama.
Era uma quinta feira...E chovia muito. O que aparentemente contribuia para a filmagem. O cenário era de fim dos tempos. O menino mal resolvido com a familia e a mãe estavam dentro do carro, presos numa conversa, na qual ele não queria nem ter entrado.
Os segundos começaram a se prolongar e a conversa seguiu pelo caminho errado.
"Você já se decidiu?" Disse a mulher. "Decidiu o que?" Quase guaquejou o menino.
"Se você gosta de homem ou de mulher?"
O mundo se dividiu no meio, e ele estava caindo entre os dois buracos. A chuva aumentou. Ele saiu do carro. Entrou na escola. O mundo havia desmoronado. Atravessou a catraca e queria chorar. Queria sumir. Queria desaparecer. "Cadê minha irmã?" pensou.
Ela não estava lá. Já devia ter ido pra casa. Todo esse caminho. Toda a conversa. Essa chuva.
Tudo fora em vão. A menina já estava em casa e tudo podia ter sido evitado. Agora, não mais.
Era o começo do fim de uma vida de mentiras. As coisas estavam mudando para o menino dos sonhos grandes demais que talvez tivessem que ser deixados pra trás. Sabe como é...Não sobra muito tempo pra hoje. O que é uma pena.
Retornaram pra casa. Em silêncio e lágrimas. Da mãe. O menino permanecia seco.
As coisas ficaram confusas pra pobre mulher de quarenta e cinco anos. Não era uma tarefa fácil.
Não era algo fácil para entender, não com a crianção e os pensamentos corrompidos pela sociedade da época. Mesmo assim, o menino também não era fácil. Não era compreensivel vê-lo como ele transparecia. Sem lágrimas, sem dor, sem preocupações. Mas dentro de si, o vazio ecoava e doia. Matava.
Tentou arriscar misturar as duas, três vidas. A banda, os amigos, a familia. Tudo dentro de um universo só. Sem mais três personagens, só um.
O tempo destruiu a familia. O menino não ficava mais em casa. O que era consequência do vício de ficar com o menino dos olhos brilhantes e da posição da familia sobre sua sexualidade.
Se concentrou no melhor amigo. Amor platônico. E se focou nisso para aguentar o peso da casa desmoronando. Tentou se firmar na sua paz. Já que os estudos estavam comprometidos, a casa também e o próprio julgamento.
Foi quando o resto desabou. A ida ao show gratuito na pista de skate com os amigos, resultou num futuro namorado para o menino encantado do menino do império dos sonhos destruidos.